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O "Boca Livre" é um encontro mensal , de participação voluntária, dos colaboradores do Grupo EDP no Brasil. Enquanto é servido o almoço, um tema está posto para conhecimento e reflexão. Por videoconferência ou através da presença de um mediador convidado os temas são abordados.
Esta iniciativa visa estimular os colaboradores a refletirem sobre temas contemporâneos, ligados a aspectos diversos da vida , que não só ao trabalho (espiritualidade, saúde, qualidade de vida, cidadania, mudança climática, prazer no que se faz...).
Atualmente o “Boca Livre” acontece em 9 localidades, distribuídas em 4 estados onde o Grupo EDP no Brasil opera.
Temas lançados à reflexão em 2008:
- Aquecimento Global – mediador Fábio Feldman
- "Os homens vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido." – mediador Ignácio de Loyola Brandão
- Voto Consciente: O futuro da sua cidade é o seu futuro – mediadores Heródoto Barbeiro e Fábio
- Uma resposta ao stress – mediadora Monja Coen
- Pais e Filhos – mediadora Claudia Monti Schonberger
Em 2009 os temas desenvolvidos estarão relacionados às políticas corporativas do Grupo EDP no Brasil. Já marcaram presença:
- Consumo Consciente – mediador Hélio Mattar
- Somos todos diversos – mediadores Reinaldo Bulgarelli e Luana Moraes
Confira os locais onde o “Boca Livre” está presente:
São Paulo: Capital, Mogi das Cruzes e São José dos Campos
Espírito Santo: Carapina, Cachoeiro do Itapemirim e Linhares
Tocantins: Palmas e “Usina”
Mato Grosso do Sul: Campo Grande
Reflexão sobre Pais e Filhos da mediadora Claudia Monti Schonberger
Pais e Filhos
Nós, seres humanos nascemos incompletos. Não sabemos buscar alimentos, não sabemos pedir o que precisamos, não sabemos nos proteger. Se não houver um semelhante ao nosso lado, viveremos apenas umas poucas horas. Outros animais, os irracionais, já possuem ao nascer várias das habilidades de que necessitarão para sobreviver. Já nascem repetindo comportamentos, chamados instintivos. E assim o farão por toda a sua vida.
Nós trabalhamos muito, durante muito tempo, e pagamos um preço alto para nos tornarmos “racionais”. Mas, como resultado desse empenho, aprendemos a nos comunicar, inventamos símbolos e códigos para transmitir experiências, somos capazes de voar pelo mundo e até além dele, transformamos água em luz, pensamos sobre nós mesmos e até fazemos poesia, música e arte. Ampliamos possibilidades a cada dia. A incompletude que nos determina também nos impulsiona.
E é desse trabalho que vamos tratar hoje, o trabalho de nos diferenciarmos de nossos colegas irracionais. Esse trabalho de “fazer cultura”.
Sei que o tema de hoje é “pais e filhos”. No entanto, penso que essas duas questões; filiação e cultura estão intimamente relacionadas.
Bem, o bebê nasce vulnerável, desprotegido, necessitando de cuidados essenciais. Se não os receber, morre. Mas, sabemos que além desses cuidados básicos: alimentação, calor, higiene, o bebê precisará de outro tipo de cuidados, ligados ao aconchego, aos afetos. Precisará de um adulto que se encarregue dele. Esse adulto poderá ser a mãe, mas também o pai ou a avó, o avô, o pai adotivo, a mãe adotiva. Alguém que sonhe e imagine o adulto que esse serzinho será. E que fale com ele, dirija-se a ele, de posse dessa “ilusão”.
Nós, pais, adultos, antevemos no bebê algo que ele ainda não é. Então o bebê faz “Ah” e nós dizemos, felizes: --Olha, ela disse papai! Ou ele pega com dificuldade determinado objeto e o empilha e dizemos: --Com certeza será um bom engenheiro. Ou – Ele é tão inteligente, vai ser Presidente! Ou ainda: Veja o jeito dela brincar, vai ser médica! E por aí vai...
E assim o ser humano torna-se humano, a partir da relação com um semelhante, como mirar-se num espelho. Cresce até tornar-se homem ou mulher. Sendo falado, sendo sonhado.
Então, no momento inicial da vida, tão frágil e tão potente porque semente do futuro, o pequeno ser necessita da disposição, da generosidade, da possibilidade de tempo, de um ou mais adultos que se disponham a exercer essa importante empreitada.
Mas para que o bebê possa também ter a capacidade de sonhar, de antecipar, de esperar, é necessário que dele nos afastemos... Se suprirmos “tudo” ele não cresce e até adoece mentalmente.
E aí começam as questões...
Até onde suprir, até onde nos aproximar e quando é preciso se afastar. Acredito que a maioria das perguntas que muito provavelmente vocês se façam, enquanto pais ou enquanto filhos, gira em torno desse paradoxo.
Poderíamos começar pela mãe que é quem porta e quem inicialmente alimenta a criança com seu leite. Se a mãe trabalha fora, e muitas o fazem atualmente, a licença maternidade um dia chega ao fim. Tenha ela 120 dias ou mais, chega o momento de voltar ao outro trabalho. Nós mulheres batalhamos muito para ocupar a posição social que ocupamos hoje em dia e não podemos, ou não escolhemos ou não queremos pôr tudo a perder nesse âmbito. (Isso para as mães que têm escolha, pois muitas de nós são chefe de família).
Mas temos criado saídas, e acredito que boas saídas. Atualmente, por exemplo, são muitos os pais que se revezam nos cuidados com as crianças. Eles não mais simplesmente ajudam, eles participam, dividem. Há alguns familiares com possibilidades e desejo de se ocuparem de netos, sobrinhos. Em nosso país ainda podemos contar com profissionais que muito nos auxiliam, as babás, as empregadas domésticas. (Há aí uma questão importante sobre o destino dos filhos dessas mulheres) E há também as creches, que, bem administradas, fazem um ótimo trabalho. Mais tarde a escola surge como importante referencia, não só no aspecto da transmissão do conhecimento, mas também na possibilidade de criação de vínculos sociais e afetivos.
Mas mãe continua mãe e pai continua pai.
Tudo isso remete a ampliar aos poucos o vínculo inicial, tão próximo corporal e afetivamente e tão necessário. E como sofremos com isso!
Mas, assim como os bebês, nós, adultos, também crescemos nessa jornada. Se estivermos atentos, se pudermos aproveitar esse maravilhoso encontro com um novo ser, crescemos e nos aprimoramos como pessoas também.
O tipo do contato vai se modificando ao longo da vida. O bebê que necessitava de aconchego no início, agora criança, precisa de espaço para se afastar, para andar, subir, pular, cair, tentar de novo. A proximidade dos pais não é mais tão estreita; a criança precisa estar ao alcance do olhar dos pais.
E caminham as questões, agora de outra ordem... Quando precisamos nos aproximar, dar mais de nossa atenção, de nosso tempo, entender o que estão nos dizendo através de determinados comportamentos. Pois sabemos que as crianças “falam” através de suas atitudes, de suas febrinhas, de seus xixis na cama, de seu não aprender na escola.
Trago como exemplo algo muito freqüente hoje em dia que é a obesidade; temos visto cada vez mais crianças acima do peso e com sérios problemas de saúde decorrentes. Isso não ocorre do dia para a noite, é um processo. Como está essa criança? Ela brinca? Do quê? Ela caminha? Ou passa as horas de lazer em frente ao computador ou à TV?
Outro exemplo, muitas escolas encaminham crianças agitadas para especialistas. Vários deles, hoje em dia, diagnosticam hiperatividade e medicam a própria infância. Há que se pensar se a escola não espera uma criança idealizada, adaptada. As que não se enquadram nesse padrão, muitas vezes por serem apenas crianças ativas, são erroneamente consideradas doentes e medicadas.
Há vários exemplos e poderíamos nos deter em vários assuntos. Talvez possamos fazê-lo ao final, quando abrirmos para as questões.
Voltando à questão do perto e do longe, por vezes não percebemos que chegou o momento de nos colocarmos em segundo plano e deixar a criança crescer.
Soltar também é preciso: uma mãe que faz a lição de casa pelo filho, ou o trabalho que ele não consegue, na tentativa de impedir o sofrimento que advêm do erro, o impede de aprender. Um pai que briga com os colegas de seu filho, o impede de aprender a conviver, a enfrentar disputas e conflitos.
E mais tarde, com relação aos adolescentes as questões giram em torno de sexualidade e transgressões: Pode trazer a namorada em casa? Talvez sim, mas pode trazer o namorado para dormir em casa? E as drogas? Será que meu filho usa? Será que minha filha bebe? Já ficou? Já transou com o namorado? Preveniu-se? O que fazem quando saem em grupos? O filho passa muito tempo na Internet, o que faz? Com quem conversa?
Que fazem os pais? Olham tudo? Perguntam? Tentam ser “amigos”? Ou se afastam e não falam sobre esses temas?
Os conflitos existem e não pode ser negados. E na adolescência, muitas vezes são transformados em ações que podem trazer sérios riscos ao adolescente. Nesta fase da vida a proximidade pode se dar através das conversas, das palavras.
Todas essas questões, que talvez sejam as de vocês, quem já é pai ou mãe ou quem me escuta no lugar de filho, nos levam a muitas direções, mas podem nos remeter, a meu ver a um eixo que pode nos servir como Norte nessa complexa viagem: a ética subjacente às relações, uma ética que acompanha e orienta nossas escolhas e nossas ações.
Que individuo, que pessoa queremos criar, queremos colocar no mundo?Alguém que contribua para melhorar um pouco o mundo em que todos vivemos, alguém que possa nos superar, nos representar, alguém que continue sonhando seus próprios sonhos e tentando realizá-los na medida do possível?
Essa ética baliza a relação que temos com nossos filhos e em decorrência a relação deles com os outros.
Para os filhos, baliza as relações que eles têm com seus pais, com seus pares.
Competir e vencer a qualquer preço ou fomentar relações fraternas, inclusivas?
Lembrando a metáfora do arco e da flecha que muito apropriadamente abriu esta reflexão, penso que enquanto pais somos também um pouco dessa flecha, pois algo de nós vai junto, se projeta. Assim como os genes, o amor se projeta, a condição de humano se transmite. E imagino que todos ansiamos por projetar construtores de um mundo cada vez melhor, com cada vez menos injustiças, cada vez menos violências e agressões, desde à própria natureza que é nossa casa até às próprias pessoas.
Talvez no corre-corre do quotidiano, na busca legítima por melhores condições financeiras ou de reconhecimento, vamos deixando de lado o cultivo das relações com as pessoas que nos cercam. Um evento como este de hoje, ajuda-nos a parar para refletir. Isso já provoca mudanças.
Parece que falei pouco do ponto de vista dos filhos com relação aos pais, não é? Empresto a frase da música do “Legião Urbana” que propõe uma mudança na posição do filho. Um giro. Porque os modos de nos relacionarmos facilmente se cristalizam. E os pais que sempre foram os cuidadores, os protetores, os “quebra-galhos”, ficam nesse lugar também no olhar e na expectativa dos filhos. Vamos a musica;
“Você diz que seus pais não entendem”
Olhem o giro
“Mas você não entende seus pais” “Você culpa seus pais por tudo” e concluem:
“São crianças como você”
Não somos super-homens, nem super-mulheres. Brincamos um tanto de sermos super heróis para nossos filhos, aliás, eles precisam disso por um tempo. Mas, depois, com o passar do tempo, precisam também compreender que isso é uma fantasia. Somos todos falíveis, não super, não heróis. Temos limites.
Nesse sentido, somos crianças vulneráveis. A morte está sempre por aí para nos lembrar dessa condição, por mais que nos defendamos não pensando muito nela. (e assim tem que ser). Nesse sentido somos crianças sempre, e chega um momento em que filhos e pais se igualam nessa consciência, que possibilita relações de trocas mais igualitárias.
Não é um bom motivo para nos aproximarmos e fomentarmos relações mais fraternas? Formarmos redes? Juntos nos complementamos e nos tornamos mais fortes.
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